Eis que vivenciamos a “Sexta Feira Santa”, um dos principais dias do calendário religioso, onde igreja e cristãos relembram o suplício da crucificação - a morte de Jesus.
Hoje sozinha em casa me peguei a pensar nesta data e me permiti viajar no tempo, quando ainda menina, a Semana Santa tinha uma outra “roupagem”, era de fato celebrado um dia santo, era dia de recolhimento, as igrejas tinham um aspecto fúnebre, com as imagens dos seus santos encobertos por tecido roxo.
Na quarta-feira Santa, à noite, tinha uma tradição muito antiga e comovente a procissão do encontro entre Nossa Senhora das Dores e o Bom Senhor Jesus dos Passos. As Mulheres faziam uma procissão carregando a imagem de Nossa Senhora das Dores, com cantos penitenciais, com as figuras bíblicas das “mulheres piedosas”: Verônica, que teria enxugado o rosto ensangüentado de Jesus numa toalha, na qual ficou estampada a sua face; Maria Madalena e outras mulheres que acompanharam a caminhada de Jesus para o Calvário. E uma outra procissão era feita só pelos homens, que carregavam a imagem do Senhor dos Passos, figura de Jesus Cristo coroado de espinhos, ensangüentado, escarrado e carregando uma cruz às costas. Em determinado local se dava o encontro e seguiam juntos para a igreja onde havia uma celebração.
Já na Quinta-Feira Santa, todos eram orientados para limpar bem as casas. Havia ainda a celebração do lava-pés , onde o padre representando Jesus, lava os pés de seus discípulos, que são representados por 12 homens ou meninos da comunidade vestidos conforme a época de Jesus e após o lava-pés, recebiam um pão abençoado.
Na sexta-feira da crucificação tudo era proibido, inclusive falar alto. As crianças não podiam brincar, não se comia carne, as mulheres usavam trajes pretos nas igrejas, os homens, igualmente, se vestiam de luto. Todos oravam diante da imagem do Cristo morto, havia a procissão do silêncio que representava o enterro, uma das manifestações mais comoventes da nossa cultura religiosa. Só era permitido arrumar a cama com cuidado. O jejum era em alguns lares obrigatório, com ressalvas para crianças menores de 14 anos e idosos maiores de 65 anos. Nas casas, ruas e igrejas, o ambiente era de desolação. Luto sentido e respeitado por aquele que morreu na cruz, aos poucos, condenado somente porque amou demais a humanidade.
O Sábado era dia dos Judas feitos de pano nos quintais das casas e saiam pelas ruas da cidade, e tinha aquela correria da meninada e de adultos para malharem o Judas, homens mascarados com chicotes faziam parte desse cenário, as crianças que tinham medo escondiam-se dentro das casas. Esses Judas retratavam os malfeitores da sociedade, onde a predominância era de políticos.
O domingo de páscoa para as crianças hoje como dantes significa caça aos ovos de páscoa, diversão e muito chocolate, mas as crianças antes mesmo que tivesse o interesse maior no chocolate eram orientadas por seus pais de que o domingo de páscoa era o dia da ressureição, a vitória de Cristo sobre a morte, a celebração do renascimento Daquele que deu a sua vida por nós.
Hoje, a Sexta-Feira Santa se tornou mais um feriado comercial, onde o verdadeiro sentido se perdeu no decorrer do tempo, faz parte, na maioria das vezes, de um pacote turístico, que se inicia oficialmente na quarta-feira das trevas, e termina no domingo da Páscoa. Semana Santa significa mais um feriadão, no nosso rico calendário de enforcação dos dias úteis. Notícias da Semana Santa na televisão são avisos que não há mais vagas em vôos e ônibus para qualquer parte do Brasil. Ninguém mais se lembra da morte de Cristo. A triste Sexta-Feira Santa de outros tempos foi transformada em festas nas chácaras, resorts, barcos, bacalhau, vinhos e pagode com muita comida e cerveja. Será que é a isto que se chama progresso? Será que os valores reais da vida que deveriam ser eternos estão sendo substituídos pelos valores mundanos? Seja como for, resta um consolo para a humanidade. Jesus, no auge do holocausto de sua própria vida falou: "Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem!"

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